Francês de 62 anos percorre Caminho do Peabiru a pé em travessia do Atlântico ao Pacífico e passa por Foz do Iguaçu

Gilles Verrecchia iniciou a travessia em Santa Catarina e pretende seguir até o Peru, passando por Paraguai, Bolívia e Peru em uma jornada inspirada na antiga rota indígena 

O que começou como uma conversa entre amigos e família durante uma trilha no Pico do Paraná se transformou em uma aventura de milhares de quilômetros pela América do Sul. O francês Gilles Verrecchia, 62 anos, decidiu encarar o desafio de percorrer o histórico Caminho do Peabiru, uma antiga rota indígena que ligava os oceanos Atlântico e Pacífico e passa pela região de Tríplice Fronteira, incluindo Foz do Iguaçu.

Morador de Curitiba há 28 anos, atualmente chefe de cozinha, Gilles se define como “um francês que adotou esse país maravilhoso que é o Brasil”. Acostumado a grandes travessias, já percorreu a pé diferentes trilhas ao redor do mundo, incluindo os caminhos de Santiago de Compostela, trechos do Deserto do Saara, dos Pirineus e expedições por países como Índia, Indonésia, Malásia, Tailândia e Bali. Desta vez, porém, o objetivo é atravessar a América do Sul, de leste a oeste, seguindo os vestígios do Caminho do Peabiru. 

Gilles teria chegado a Foz no sábado (5/9), a ideia é continuar na cidade até a quinta-feira (10/9) e depois seguir os próximos passos da expedição. Mas, a caminhada começou em março, na Praia do Naufragado, em Palhoça, Santa Catarina. Desde então, Gilles percorreu cerca de mil quilômetros, cruzando serras e montanhas do Sul do Brasil. Durante o percurso, enfrentou desafios físicos, problemas de saúde e até precisou interromper temporariamente a viagem para consertar o carrinho adaptado que utiliza para transportar seus equipamentos. A estrutura foi construída por ele mesmo, utilizando uma escada de alumínio e a roda de uma bicicleta infantil.

Próximos passos

Depois de Foz do Iguaçu, a intenção inicial era atravessar o Chaco Paraguaio, mas as dificuldades logísticas relacionadas ao transporte de água e alimentos podem levá-lo a seguir pela Argentina antes de continuar rumo à Bolívia.

O destino final permanece o mesmo: alcançar o Lago Titicaca, passar por La Paz e Cusco até chegar a Lima, no Peru, onde pretende concluir a travessia diante do Oceano Pacífico

O Caminho do Peabiru 

Peabiru vem do termo Peabeyú, que na língua Guarani significa “Caminho Antigo de ida e volta” ou “Caminho Gramado Amassado”. A rota ancestral possuía cerca de 3 mil quilômetros de extensão e foi amplamente utilizada pelos povos indígenas Guarani, Kaingang e Xetá. Segundo pesquisas sobre o tema, o caminho atravessava os atuais territórios do Brasil, Paraguai, Bolívia e Peru, conectando os oceanos Atlântico e Pacífico. Personagens históricos como São Tomé, Aleixo Garcia e Álvar Núñez Cabeza de Vaca também teriam percorrido trechos da rota.

Imagem: pedradoindiobotucatu

A ideia de realizar a travessia caminhando surgiu após Gilles ouvir falar do Peabiru durante uma conversa com amigos de seu filho. Curioso, ele iniciou uma série de pesquisas sobre a história do caminho e decidiu transformar o interesse em projeto de vida.

“Comecei a pesquisar e me interessar. Aí falei: sabe de uma coisa? Eu vou fazer esse Caminho de Peabiru e vou desafiar do Atlântico até o Pacífico”, relembra.

Significado, Hospitalidade e Introspecção

Além do desafio físico, a caminhada também possui um significado simbólico. Antes de iniciar a jornada, Gilles coletou uma garrafa de água no Oceano Atlântico. A ideia é carregá-la durante toda a travessia e despejá-la no Pacífico ao final do percurso.

“Eu fiz um ritual espiritual de pegar uma água lá no Atlântico e a ideia é pegar essa água do Atlântico e jogar lá no Pacífico”, conta.

Ao longo do caminho, outro aspecto chamou sua atenção: a hospitalidade das pessoas encontradas pelo Paraná.

“O carinho e a hospitalidade do povo do Paraná foram excepcionais. Me convidaram para ficar na casa das pessoas, os municípios e prefeitos me ajudaram com hospedagem para eu poder descansar e seguir viagem”, afirma.

Para ele, o Caminho do Peabiru possui potencial para se tornar um importante produto turístico, cultural, esportivo e espiritual para os municípios que integram a rota histórica.

“Pode ser um caminho religioso, espiritual, esportivo. O importante é valorizar esse patrimônio e aproximar as pessoas da natureza e da história”, destaca.

Caminhos pelo Oeste do Paraná

Para quem se inspira em jornadas como a de Gilles e deseja conhecer a região caminhando, pedalando ou explorando seus ambientes naturais, a Adetur Cataratas reúne diferentes possibilidades de roteiros nos Caminhos do Iguaçu. 

Além do Caminho do Peabiru, entre as opções estão a Rota dos Pioneiros é voltada à memória da ocupação e da formação dos municípios da região, permitindo conhecer lugares ligados à trajetória das comunidades e dos primeiros moradores que ajudaram a construir o território. O percurso terrestre passa por Terra Roxa, Guaíra, Mercedes, Marechal Cândido Rondon e Entre Rios do Oeste. Já a opção aquática, tem início em Guaíra e segue pelas águas do Rio Paraná e do Lago de Itaipu até chegar a Foz do Iguaçu.

A Rota da Fé, por sua vez, reúne experiências relacionadas à religiosidade e à espiritualidade, passando por locais de peregrinação e espaços que fazem parte da tradição religiosa regional. É uma alternativa para quem busca uma caminhada que combine contato com a natureza e uma experiência de reflexão e conexão pessoal. O trajeto inclui as cidades Entre Rios do Oeste, Santa Helena, Missal, Itaipulândia, Medianeira e Serranópolis do Iguaçu. 

Já o Caminho da Coluna Prestes resgata a história da Coluna Prestes e dos acontecimentos políticos e sociais relacionados à passagem do movimento pela região. O percurso aproxima o visitante de lugares que preservam a memória desse episódio da história brasileira, combinando patrimônio histórico e paisagens naturais, passando pelos municípios de Santa Helena, Diamante D’Oeste, Ramilândia, Matelândia e Céu Azul.

Os Caminhos do Peabiru, por sua vez, estão relacionados à antiga rede de caminhos utilizada por povos indígenas e que atravessava diferentes territórios da América do Sul. A rota conecta a história dos povos originários à possibilidade de explorar a natureza por meio de trilhas e experiências de caminhada e cicloturismo. 

Trilhas para explorar a natureza do Parque Nacional do Iguaçu

Além de abrigar as famosas Cataratas do Iguaçu, o Parque Nacional do Iguaçu também oferece diferentes caminhos para quem deseja conhecer de perto a Mata Atlântica e as paisagens naturais da região. As trilhas permitem experiências que vão da contemplação das quedas-d’água a caminhadas, passeios de bicicleta, observação de aves e contato com rios e cachoeiras.

A Trilha das Cataratas é o percurso mais tradicional do parque e proporciona uma das principais experiências para quem visita Foz do Iguaçu. Com aproximadamente 1,5 quilômetro, o trajeto começa após o desembarque dos ônibus panorâmicos e segue pela Mata Atlântica, com diferentes mirantes ao longo do caminho. Conforme o visitante avança, as quedas ficam cada vez mais próximas, até chegar à passarela que proporciona uma vista privilegiada da Garganta do Diabo, um dos pontos de maior impacto visual das Cataratas.

Para quem busca um percurso mais longo e uma experiência de imersão na floresta, o Caminho do Poço Preto percorre nove quilômetros em meio à Mata Atlântica. O trajeto pode ser realizado a pé ou de bicicleta e, considerando ida e volta, chega a 19,2 quilômetros. O caminho é especialmente indicado para quem gosta de observar aves e conhecer a biodiversidade do parque por meio da interpretação ambiental.

Já o Caminho das Bananeiras oferece uma experiência mais curta, com 2,6 quilômetros no total, entre ida e volta. O percurso conduz até as margens do Rio Iguaçu, onde está o Espaço Taupá, que conta com um deque de contemplação. Além da paisagem do rio, o caminho permite observar a fauna e a flora da Mata Atlântica. Atualmente, o percurso está temporariamente fechado.

Para os visitantes que preferem explorar o parque sobre duas rodas, a Ciclovia das Cataratas possui 11,6 quilômetros pavimentados. O percurso começa no Centro de Visitantes e segue por diferentes trechos imersos na Mata Atlântica até chegar ao início da Trilha das Cataratas. Quem não possui bicicleta pode utilizar o serviço de aluguel disponível no parque.

O Circuito São João, por sua vez, combina natureza e história. Com 2,8 quilômetros, a trilha percorre áreas da Mata Atlântica e conta com pontos destinados ao banho de rio e cachoeira. O trajeto também passa por locais de importância histórico-cultural relacionados à trajetória do Parque Nacional do Iguaçu. O acesso começa a cerca de 200 metros da Escola Parque, em uma entrada paralela à ciclovia.

Outra alternativa é a Trilha da Canafístula, com 2,2 quilômetros de extensão. O percurso é indicado para quem procura uma caminhada mais curta e tranquila, podendo ser feito a pé ou de bicicleta. Durante o trajeto, o visitante encontra áreas de Mata Atlântica, a margem do Rio São João e diferentes possibilidades de observação da fauna e da flora, em uma experiência voltada à contemplação e à interpretação ambiental.