Neste ano (2026), um fato curioso chamou atenção: a Quaresma, o Ramadã e o Ano-Novo Chinês começaram praticamente no mesmo período, algo que não acontecia desde 1863. Três tradições diferentes, três calendários distintos, milhões de pessoas vivendo a fé ao mesmo tempo.
Essa coincidência histórica inspira uma reflexão sobre multiculturalidade, respeito e liberdade religiosa. Mas, para quem vive em Foz do Iguaçu, essa convivência não é novidade.
A multiculturalidade em Foz do Iguaçu é uma das características mais marcantes da cidade, que reúne mais de 90 nacionalidades e cerca de 80 etnias na tríplice fronteira. Comunidades árabes, chinesas, paraguaias, argentinas, além de influências europeias e indígenas, convivem e compartilham o mesmo território há décadas e ajudam a construir o perfil social, cultural e econômico da cidade.
Essa diversidade se manifesta de várias formas: na gastronomia, nos idiomas, nas celebrações culturais e nos espaços religiosos espalhados pela cidade.
Mesquita Omar Ibn Al-Khattab
Localizada em um bairro com a segunda maior concentração de imigrantes e descendentes da comunidade árabe no Brasil, a Mesquita Omar Ibn Al-Khattab teve início em 1983. A proposta era oferecer um espaço adequado para que os muçulmanos da comunidade pudessem realizar suas orações e eventos religiosos.
As obras começaram em 1983 e foram concluídas em 1987. Para a época, o projeto foi considerado audacioso: arquitetura islâmica marcante, base octogonal cercada por arcos e a execução do maior vão livre de cúpula em concreto armado da América Latina. A mesquita tem capacidade para até 580 pessoas.

O interior é repleto de detalhes em arabescos e motivos religiosos. Do lado externo, os minaretes de 31 metros de altura ressoam, cinco vezes ao dia, os chamados para a oração, reforçando a presença islâmica na paisagem urbana de Foz.
Templo Budista Chen Tien
Construído em 1996 pelas comunidades chinesas da tríplice fronteira, o Templo Budista Chen Tien impressiona pela grandiosidade e pela riqueza simbólica.
O complexo abriga três estátuas principais de Buda: a réplica em concreto do Buda sentado Mi La Pu-San, com sete metros de altura; a estátua do Buda Shakyamuni deitado, simbolizando o alcance do Parinirvana; e a estátua em bronze do Buda Amitaba, representado como o mais alto na hierarquia de iluminação no templo.

Além dessas, há cerca de 120 estátuas representando diferentes reencarnações de Buda. O templo principal possui mais de dois mil metros quadrados, distribuídos em dois andares, onde também se localiza a Casa do Mestre.
Catedral Nossa Senhora de Guadalupe
A Catedral Diocesana Nossa Senhora de Guadalupe combina elementos góticos com uma estrutura moderna. Projetada no formato de Cruz Grega, possui um círculo central e três portas iguais.

Essa arquitetura carrega simbolismo: representa a perfeição, a eternidade divina e a igualdade entre os três povos da tríplice fronteira brasileiros, paraguaios e argentinos. Mais do que um espaço de celebração católica, a catedral também expressa a ideia de integração regional.
Casa de Luz Vovó Maria Conga: espiritualidade e ação social
Espaço dedicado à espiritualidade afro-brasileira e à prática da umbanda, a Casa de Luz Vovó Maria Conga oferece um ambiente acolhedor voltado à cura, ao autoconhecimento e ao fortalecimento comunitário.
Além dos atendimentos espirituais, o local também realiza ações sociais, funcionando como ponto de apoio à comunidade e reforçando o papel das religiões de matriz africana na construção cultural da cidade.
A multiculturalidade em Foz do Iguaçu como identidade local
Mas a multiculturalidade não se limita aos templos e espaços de fé, ela está na gastronomia: do kibe e homus aos pratos chineses, das massas italianas às influências paraguaias e alemãs. Está nos idiomas que se cruzam nas conversas cotidianas e nas histórias de famílias que vieram de longe e encontraram na cidade um novo começo.
A influência da comunidade árabe é marcante em muitos restaurantes espalhados pela cidade, onde pratos como shawarma, esfiha, kibe e doces tradicionais são servidos ao lado de temperos característicos e receitas que fazem parte do cotidiano iguaçuense. Ao mesmo tempo, a proximidade com a Argentina e o Paraguai se reflete nas opções de parrilla argentina, chipa e sopa paraguaia, que se tornaram presença constante nos menus locais.
Além disso, Foz também abriga espaços dedicados a cozinhas orientais, com restaurantes japoneses e chineses que servem desde sushi e pratos tradicionais até opções populares como frango xadrez, yakissoba, lámen, guioza e etc.
Além disso, a culinária brasileira e regional está presente nos pratos típicos da cidade, como o Pirá de Foz, um prato à base de peixe local preparado com ingredientes como molho de gengibre e purê de mandioca e nos peixes de água doce, apreciados em festivais e preparações tradicionais. A região também celebra suas tradições com bebidas como chimarrão e tereré, consumidas tanto por moradores quanto por visitantes em diferentes momentos do dia.
Respeito: a base da convivência
Porém a diversidade, por si só, não garante convivência harmoniosa. O que sustenta essa pluralidade é o respeito.
Respeito às crenças, às tradições, às identidades, às diferentes formas de enxergar o mundo, ao modo de vestir, às datas comemorativas, aos rituais e às escolhas individuais. Em uma cidade onde culturas tão distintas compartilham o mesmo espaço urbano, o diálogo se torna essencial.

Em Foz do Iguaçu, essa convivência foi sendo construída ao longo do tempo. A cidade aprendeu que multiculturalidade não é apenas um dado demográfico, mas uma prática diária que exige reconhecimento e abertura.

Mais do que um dado demográfico, a multiculturalidade em Foz do Iguaçu se tornou parte essencial da identidade da cidade, moldando sua cultura, economia e forma de convivência.






